O pão com manteiga e as eleições europeias

Eleições europeias

Ainda a propósito das eleições europeias e do meu post anterior “As eleições, o Twitter e as redes sociais“, parece-me que vários partidos tiveram o cuidado de apostar em diversas ferramentas sociais como Blogs, Twitter, Facebook e You Tube, entre outras, mas esqueceram-se do básico, do pão com manteiga, ou seja, esqueceram-se de apresentar, nos seus sites, os seus compromissos para estas eleições, de uma forma simples e directa.

Esta manhã, numa tentativa de me informar um pouco mais sobre os compromissos que alguns candidatos apresentam para estas eleições, para poder confirmar a minha intenção de voto, pude verificar que em vários sites dos partidos políticos portugueses não é fácil encontrar esta informação. Em nenhum dos vários sites que consultei, existe uma página simples que apresente de uma forma directa o que defendem os candidatos portugueses às eleições europeias.

Na minha opinião, a maioria dos partidos aposta(ra)m em várias ferramentas sociais online, sem as enquadrarem numa estratégia online integrada e sem fundamentalmente, terem consolidado o básico, ou seja, sem desenvolverem um site simples, apelativo, com um inteface amigável, que cumpra as boas práticas de acessibilidade e usabilidade, que antes de mais, permita que os utilizadores/cidadãos encontrem as informações mais importante, como o perfil dos candidatos ou os compromissos que estes defendem.

As eleições, o Twitter e as redes sociais

webmap2009

Num ano em que temos 3 eleições começa a ser cada vez mais comum, a aposta dos partidos políticos na web social ou mais concretamente nas redes sociais.

Uns “apostam tudo no Facebook“, outros “aderem ao Twitter“. São notícias atrás de notícias sobre as mais variadas utilizações das redes socias, por parte dos partidos, de tal forma que parece que o importante é promover que se está a utilizar a rede social A ou B, em vez de se aproveitar as reais vantagens de se poder conversar de uma forma mais próxima com as pessoas, ouvindo o que estas têm para dizer.

Por exemplo, actualmente não é possível que um político esteja no Twitter sem seguir uma única pessoa. Para mim, uma das mais valia destas novas ferramentas é permitir que os políticos se voltem a aproximar das populações que supostamente representam, mas não apenas para falarem com eles mais directamente, mas para ouvir o que estas tem para dizer. Mas atenção, eu não defendo que os políticos, por exemplo no Twitter, devam seguir/acompanhar pessoas indiscriminadamente, sem qualquer lógica. Acho que a lógica deve passar por, por exemplo, seguir /acompanhar as pessoas que os sigam, ouvindo-as e interagindo com estas, sempre que tal se justificar, quer respondendo a @replies, quer respondendo a simples tweets gerando conversas sobre os mais variados temas.

Apenas desta forma, estas novas ferramentas, possíveis revitalizadoras da democracia, poderão ser utilizadas correctamente, constituindo-se como um meio para chegar mais perto das pessoas e não como um meio para ganhar uns quantos votos à custa de uma falsa imagem de inovação.

BloggerView #23 Bruno Amaral

Esta semana tenho o prazer de publicar a bloggerview do Bruno Amaral. Para quem não conhece o Bruno Amaral é o autor do excelente blog “Relações Públicas“, que segundo o Bruno, e com o qual eu concordo, é “o melhor recurso para o diálogo sobre Relações Públicas e marketing“. Eis as respostas do Bruno.

1. Quando é começaste a “blogar”? Quais as principais razões que te levaram a ter um blog?
Bruno Amaral (B.A.): O meu primeiro post tem a data de 8 de Setembro de 2005.

Tinha terminado o curso e comecei o blog como forma de procurar emprego. Sou do ramo de Relações Públicas por isso fazia todo o sentido começar um blog onde mostrasse o que sei e aplicasse uma estratégia de comunicação.

2. Como surgiu o nome do teu blog?
B.A.: Não foi preciso muito para me aperceber de que focar o blog em mim não ia resultar. Por isso concentrei-me no tema de que gosto, Relações Públicas.

Aproveitei o termo para o nome porque não encontrei nenhum blog que já o estivesse a usar, e porque era a base da minha estratégia de Comunicação.

3. Tens metas ou objectivos que pretendes atingir com o teu blog? Quais são?
B.A.: No ínicio queria encontrar um emprego e impulsionar a minha carreira, parte dessa estratégia implicava ter o blog no primeiro lugar do google para “relações públicas”. Isso já consegui.

Agora o meu objectivo é produzir ou encontrar conteúdos de qualidade para partilhar com os leitores. Em segundo plano, quero que o blog seja uma referência na blogosfera de/sobre comunicação.

4. Em tua opinião, qual é o papel que os blogs podem desempenhar no futuro, por exemplo em empresas ou escolas?
B.A.: No que diz respeito a empresas, o blog pode aproximar da empresa os seus clientes, parceiros e o talento. Alinhados com os objectivos de negócios podem trazer retornos que não se limitam apenas a vendas.

Para as escolas, um blog pode ser uma fonte enorme de dinamismo. Usámos um blog interno para coordenar a minha turma de mestrado, e funcionou muito bem. Não só para a partilha de links e documentos que iamos encontrando online, também na coordenação de actividades.

Ultimamente o blog tornou-se num mecanismo de comunicação para o grupo e sinto que aproximou bastante os alunos e os professores. Teve um impacto muito positivo numa série de níveis. Se aconteceu com uma turma, pode acontecer ao nível de uma escola.

5. Como prevês o futuro dos blogs nos próximos anos?
B.A.: Não consigo fazer grandes previsões, mas tenho acompanhado algumas ideias de web semântica que acho muito interessantes.

As ferramentas têm vindo a mudar e as redes sociais como o hi5 ou o facebook podem tornar-se mais importantes do que os blogs junto de algumas pessoas. Da mesma forma, há plataformas de comunicação que fazem mais sentido para do que os blogs consoante o público. O flickr por exemplo, pode fazer mais sentido para um fotógrafo do que ter um “fotolog”.

E para dar sentido a todas as ferramentas, temos os agregadores como o Friendfeed. Resta esperar, tentar observar o melhor possível e ver qual será o resultado.

6. Quantos feeds RSS tens no teu agregador de conteúdos? Que agregador utilizas? Porquê?
B.A.: Tenho 200 subscrições e uso o google reader. Não só porque me permite ler os feeds em qualquer lugar, também por causa da opção de partilhar conteúdos. Gosto de incluir os google shared items na minha página de Friendfeed.

Nem sempre tenho algo interessante para comentar a um post, mas sinto que é importante partilhá-lo ou interagir de alguma forma.

7. Qual é a tua opinião sobre os feeds RSS? Que papel pensas que poderão desempenhar no futuro, por exemplo na relação entre os governos e os cidadãos?
B.A.: Prefiro os RSS a uma newsletter; É mais fácil de gerir e prende mais a minha atenção. Na relação entre governos e cidadãos, até posso mostrar um exemplo: http://www.lexfeed.eu/

É um site onde podemos ter acesso a todas as rss feeds da união europeia. Algo que faz todo o sentido uma vez que pode passar imenso tempo entre uma proposta e a criação de uma legislação específica.

Encontrei este exemplo no blog de Thomas Pleil, onde está inclusive uma entrevista ao responsável pelo website: http://thomaspleil.wordpress.com/2008/09/16/lexfeed-tracking-legislation/

E como este exemplo tenho a certeza de que há mais. Geralmente apenas olhamos para o RSS como uma forma de subscrever, mas através do yahoo pipes e outras ferramentas podemos usar o RSS como base para algo muito mais dinâmico.

8. Para ti, qual é a coisa mais importante que está a acontecer na web, neste momento? Porquê?
B.A.: Para mim é a criação de blogs por parte das agências de comunicação. O trabalho destas agências é dar consultoria de comunicação, por isso as minhas expectativas em relação a estes blogs costumam ser muito elevadas.

Mas a verdade é que até agora, as agências estão a passar pelas mesmas dificuldades que as agências de outros países.

9. Para além dos blogs, que outro software social utilizas, como o Flickr, Del.icio.us, Digg, LinkedIn, Twitter ou outros?
B.A.: Por acaso, desses só não uso o Digg. Também gosto bastante do dopplr, brightkite e dropbox.

Sempre que surge algo novo, faço o possível por experimentar e descobrir se é algo que faça sentido no meu dia a dia e que me facilite a vida. E quando alguém me pede conselhos sobre software (web-based ou não) tento nunca recomendar algo que não tenha usado antes.

10. Como analisas o comportamento das empresas de assessoria de comunicação e Relações Públicas portuguesas face à web 2.0?
B.A.: É um tema próximo da pergunta 8. Tenho visto iniciativas muito interessantes por parte de várias agências. Principalmente blogs e a criação de um directório por parte da Lift. A LPM patrocinou a ida de um blogger aos Estados Unidos para relatar as eleições.

Mas acho que ainda falta uma alteração de postura por parte das agências. Uma preocupação maior em dar e em interagir com a comunidade online e menos acções onde a preocupação maior é o retorno de investimento.

Obrigado Bruno pela tua participação. Para consultar as BloggerViews anteriores basta seguir este link.

BloggerView #22 Paulo Querido

Paulo Querido Após mais uma semana de ausência, infelizmente (ou felizmente) pelos mesmos motivos, eis mais uma BloggerView. O entrevistado desta semana é o Paulo Querido, que tanto como se apresenta no próprio blog, é é jornalista freelancer, formador e consultor em Tecnologias de Informação e Conhecimento, autor do blog autor do blog / webzine “!Certamente“. Eis as respostas do Paulo Querido.

1. Quando é começaste a “blogar”? Quais as principais razões que te levaram a ter um blog?
Paulo Querido (PQ):
Tendo em conta os disparates que fui lendo, ao longo de 2008, sobre a história da blogosfera em Portugal, decidi optar pela resposta longa a esta pergunta sempre que ela me surja.

Já publico na web, em domínio próprio e numa lógica de “último empurra primeiro”, desde 1996. Contudo, nunca foi um blogue, nem uma “homepage”, os antepassados dos diários pessoais. Era simplesmente um webzine — um magazine mais ou menos periódico publicado na web. Assumi a designação, o formato blogue e a ferramenta em 27 de Março de 2003. A principal razão: ver como funcionavam os blogues do ponto de vista técnico, uma vez que ia escrever um livro sobre eles.

2. Como surgiu o nome do teu blog?
PQ:
O meu deve ser um dos poucos espaços que mudou de nome 😉 Começou por ser “o vento lá fora(*)”, com asterisco, uma evocação de um poema de Álvaro de Campos. Porque o blogue começou por ser um mero espaço citacional do que eu ia encontrando por aí pela web.

Em 2005 mudou de nome para “Certamente!”, com ponto de exclamação, numa homenagem à minha mulher. Só nós dois percebemos a razão da palavra, mas isso não é um problema. O espaço é, como todos os blogues, um espaço de afirmação pessoal e a palavra certamente, para mais exclamada, ajusta-se ao ambiente.

3. Tens metas ou objectivos que pretendes atingir com o teu blog? Quais são?
PQ: O Certamente! sempre teve objectivos. Começou por ser a forma de entender a tecnologia. Depois tornou-se num laboratório — o que me custou o PageRank, com tantas cabriolices que fiz no domínio a Google tem-no penalizado. Laboratório de técnicas de blogging e de tecnologias (o blogue conheceu 4 sistemas editoriais e ainda hoje está dividido por 2 bases de dados).

Na verdade, durante anos nunca o levei a peito enquanto espaço editorial, até porque espaços para ser jornalista não me faltam. Este ano, contudo, decidi que Certamente! ia ser um espaço sério. Fiz uma limpeza aos meus trolls e passei a editar com maior consciência. Mesmo os posts eminentemente pessoais têm hoje uma linguagem mais cuidada e algum resguardo pessoal.

Actualmente tenho por objectivo praticar jornalismo multimedia no sentido verdadeiro da palavra multimedia, e não no sentido que lhe é dado em Portugal, como sinónimo de audio-visual: usar diferentes meios, agrupados ou não, para transmitir um conteúdo jornalístico, fixo ou dinâmico.

4. Em tua opinião, qual é o papel que os blogs podem desempenhar no futuro, por exemplo em empresas ou escolas?
PQ:
Penso que desempenharão o mesmo papel que têm em geral: veículos de comunicação bi-direccional (de conversação, se preferirmos) entre grupos de pessoas. No caso das empresas podem servir também para comunicar a empresa para fora, desempenhando o segundo papel dos blogues, que sem deixar de ser conversacional, leva o diálogo do circuito mais ou menos interno para uma relação entre a empresa e o mundo. Para as escolas, o blogue pode — e deve — ser também (ou principalmente, diria) uma ferramenta de educação. Quer sobre ela própria e a edição web, quer sobre os outros conteúdos do ensino.

5. Como prevês o futuro dos blogs nos próximos anos?
PQ:
Variado 😉

Temos por um lado a evolução diferenciada entre países. Os blogues portugueses, individualmente e mesmo consideradas as suas tendências colectivas, seguem um percurso cada vez mais divergente face aos americanos e aos brasileiros, por razões diferentes.

Por outro, evolução editorial variada. Um blogue serve para muita coisa, não só para mostrar o gato e o ego ou para spining político. Convergindo mais ou menos acetuadamente com as metodologias do jornalismo e com jornalistas na equipa, alguns blogues tomam conta de algum do espaço até aqui ocupado pelos órgãos de comunicação social. Por exemplo. No extremo oposto, continuarão a existir blogues diarísticos sem outra pretensão além do exercício do autor.

Em terceiro lugar, evolução tecnológica. Os sistemas editoriais são cada vez mais potentes e continuam a evoluir. Poderão comportar, ou apenas aceitar como adicionais integráveis, outras ferramentas de edição/agregação, ou distribuição (RSS, microblogging, redes sociais, semântica). A esta evolução está intimamente ligada a evolução em termos de networking: o desempenho de um blogue dependerá da sua capacidade de adaptação à cultura reticular, que por sua vez depende da sofisticação tecnológica.

6. Quantos feeds RSS tens no teu agregador de conteúdos? Que agregador utilizas? Porquê?
PQ: Vou confessar 1 coisa: eu não tenho agregador de conteúdos!

Ou por outra: uso os agregadores de conteúdos de forma variada, seja para produzir o www.blogservatorio.info, o www.nestemomento.com ou mashups como o Mediastream PSD (http://pauloquerido.net/mediastream/psd/) , não uso os agregadores de conteúdos para ler blogues.

Isto a menos que consideres o Thunderbird um agregador de conteúdos; as publicações que me interessa realmente seguir, subscrevo-as por mail, hoje em dia esta subscrição está associada ao RSS. As outras, que vejo intermitentemente, sigo a partir de… bem, de sistemas que escrevi para me detectarem os padrões emergentes que valem a pena espreitar. Se não fossem eles, a minha atenção dispersava-se excessivamente, ao ponto da improdutividade e até da paralisia.

Também valorizo o Twitter como ferramenta de selecção dos conteúdos importantes, uma ferramenta que, tal como as que idealizei e construí para meu uso, é um intrumento de crowdsourcing, de aproveitamento do valor gerado pelas interacções da multidão.

7. Qual é a tua opinião sobre os feeds RSS? Que papel pensas que poderão desempenhar no futuro, por exemplo na relação entre os governos e os cidadãos?
PQ: Um papel essencial! Eu QUERO o Diário da República em RSS. Eu QUERO as sessões do Parlamento em RSS. Não quero “ver” o debate, nem sequer na televisão do parlamento, mas quero ler o debate e pesquisá-lo. Eu quero, além das sínteses que só os jornalistas me podem trazer (televisão, jornais), poder produzir as minhas próprias sínteses do DR e do parlamento, e para isso preciso de RSS. Eu QUERO os concursos públicos no meu agregador (no meu caso, no mail 🙂 ), para seleccionar os que me interessem, não quero pagar uma assinatura a um intermediário para me trazer uma informação que já é minha, é pública.

O RSS é essencial na relação do governo e do Estado com os cidadãos. Em Portugal não conheço um único exemplo de um organismo público com RSS, o que é lamentável e nos dá a dimensão exacta da relação do Estado com a web social: zero.

Isto para não irmos às APIs, que são o passo seguinte dessa relação. Eu QUERO produzir uma pesquisa, selecção e output dos MEUS conteúdos (toda a informação produzida pelo Estado é, por definição, pública, logo minha) recorrendo directamente às fontes: as bases de dados onde ela reside. Não quero procurar essa mesma informação através do Google, que não mandatei nem tenciono mandatar, para me filtrar a informação.

Da mesma forma, o Estado deve querer dar livre acesso directo a todas as pessoas, e não apenas a algumas, à informação que produz.

8. Para ti, qual é a coisa mais importante que está a acontecer na web, neste momento? Porquê?
PQ: O mais importante é o sacrifício da atenção. A dispersão dos nossos sentidos. Dividimos o nosso tempo por um cabaz de conteúdos que pensamos que escolhemos, mas não pensamos na razão porque os escolhemos — e o grau de futilidade dessa razão pode não ser o mais desejado no final. Ao contrário da web, a nossa capacidade intelectual não é finita. O cérebro cansa-se e e cérebro fica inoperacional com tanta informação, que acaba em ruído.

O mais importante é tomar a consciência de que a liberdade de escolher produz uma euforia que, como todas, é contraproducente no médio e longo prazo.

Tecnologicamente, o mais importante da web neste momento são as ferramentas que nos auxiliem a recentrar a atenção, as ferramentas que nos ajudem a centralizar o que é útil, as técnicas que nos ajudem a saber mais — o que não é nada a mesma coisa que ter mais informação.

9. Para além dos blogs, que outro software social utilizas, como o Flickr, Del.icio.us, Digg, LinkedIn, Twitter ou outros?
PQ: Em pessoa ou por interposto infobot, uso diariamente o Twitter e o Delicious. Dou alguma atenção ao LinkedIn, ao DoMelhor (o Digg português) e ao FriendFeed. Tenho conta e ligo pouco a meia dúzia ou uma dúzia de outros serviços.

10. Achas que existe espaço em Portugal para bloggers profissionais?
PQ: Acho. Mesmo que os salários venham de outro lado, há muita gente cuja actividade profissional depende do seu blogging e esse número aumenta todos os dias. Dentro de um ano, ou menos, teremos os primeiros bloggers a viverem só do blogging, ou tendo desta actividade mais de 3/4 dos seus rendimentos. É capaz, até, de já existirem alguns destes no nicho do “ganhe dinheiro agora, pergunte-me como”.

Obrigado Paulo pela tua participação. Na próxima semana, pelo menos assim, espero, irei publicar a BloggerView do Bruno Amaral.