A história dos blogues em Portugal

Eis a minha contribuição para a discussão dos últimos dias (que apanhei aqui, aqui e aqui), com base numa secção do 1.º rascunho da minha dissertação de Mestrado sobre blogues.

« Os blogues em Portugal

Em Portugal, o fenómeno dos blogues apenas começou a dar os primeiros passos a partir de 1999, com o “Macacos sem galho” e o “Dee’s Life“, em Março e Outubro de 1999 respectivamente e o “Altas Doses de Cafeína” em Agosto 2000.

Tal como é referido no website “blogo“, numa iniciativa intitulada “25 momentos na história da blogosfera – Um olhar retrospectivo da blogosfera portuguesa” nesta primeira fase tratava-se de “um grupo ainda restrito de indivíduos, interessado sobretudo num registo intimista, e constituído na maioria dos casos por estudantes e adeptos das novas tecnologias” (2005).

A partir de 2001, surgem os primeiros blogues ligados à área do jornalismo e da comunicação social, como por exemplo o “Ponto Média“, cujo primeira entrada da autoria do jornalista António Granado, data de 2 de Janeiro de 2001. Em 2002 iniciaram actividade o “Jornalismo Digital” (Fevereiro), o “Jornalismo e Comunicação” (Abril), o “Contrafactos & Argumentos” (Setembro), a “Aula de Jornalismo” (Novembro), e o “Fim do Jornalismo” (Dezembro), entre outros.

No entanto, só em 2003 se assistiu ao verdadeiro crescimento da blogosfera nacional. No primeiro “recenseamento” da blogosfera nacional realizado por Pedro Fonseca, em Janeiro de 2003 foram encontrados 174 blogues. Em Julho do mesmo ano, aquando do encerramento do “Blogs em .PT“, um dos primeiros directórios portugueses de blogues, a lista deste serviço já reconhecia a existência de mais de 900 blogues nacionais.

Alguns dos mais importantes blogues da história da blogosfera nacional apareceram em 2003, como é o caso dos blogues humorísticos “Gato Fedorento” (Abril) ou “O meu pipi” (Maio), que julgamos terá sido, até ao momento, um dos blogues a gerar mais atenção à sua volta. Na área da política o blogue “Abrupto” (Maio) da autoria do historiador e comentador político José Pacheco Pereira, trouxe algum protagonismo à blogosfera portuguesa, conforme relata Querido & Ene (2003),

“A blogosfera portuguesa já mexia com mais de um milhar de editores a publicar numa base diária, mas faltava algo, um acontecimento de repercussão mediática, para lhe conferir a visibilidade que muitos reinvidicavam e colocar os blogs definitivamente na agenda.” (p. 23)

Segundo Querido & Ene, “José Pacheco Pereira tornou-se na primeira figura de dimensão nacional a ter um “blog” e a ser por isso notícia” (p.23). O “Abrupto” tornou-se assim rapidamente num dos blogues mais visitados e mais citados da blogosfera portuguesa, tanto noutros blogues, como inclusive na meios de comunicação social nacionais. Por exemplo, aquando da morte de Álvaro Cunhal, a reacção do ex-eurodeputado do PSD e biógrafo não oficial do líder comunista, foi efectuada exclusivamente através do seu blogue, o que motivou várias citações por parte dos media tradicionais.

O ano de 2003, fica igualmente marcado pelo aparecimento do primeiro espaço português de alojamento de blogues, o “Weblog.com.pt“, em Junho. Este inovador serviço da responsabilidade do jornalista Paulo Querido tinha por objectivo constituir-se como uma alternativa nacional à plataforma “Blogger“, anteriormente referida. Alguns meses mais tarde, em Novembro, é lançado o serviço “blogs do SAPO” do portal “SAPO“.

Por último, mas não menos importante, 2003 é também o ano, em que é editado, o primeiro livro português sobre weblogues, intitulado “Blogs“, da autoria de Paulo Querido e Luís Enes.

No final de 2003, o número de blogues em Portugal tinha já ultrapassado largamente os 2000, sobretudo graças à grande explosão do mês de Junho.

O crescimento verificado na blogosfera nacional em 2003, continuou a verificar-se nos anos seguintes, da mesma forma, que esta foi ganhando maior visibilidade junto dos media tradicionais. Este crescendo de notoriedade deve-se sobretudo a algumas figuras públicas que para além dos seus espaços de opinião pública em jornais, rádios ou televisões têm blogues onde escrevem periodicamente, como é o caso do já referido José Pacheco Pereira, com o Abrupto, Vital Moreira ou Ana Gomes com o “Causa Nossa“, Daniel Oliveira com o “Arrastão” ou Francisco José Viegas, primeiro com o “Aviz” e, mais recentemente com o “Origem das espécies“.

Mais recentemente, alguns media tradicionais passaram a incluir blogues nas suas versões online. Por exemplo no jornal semanário Expresso é possível encontrar 16 blogues sobre os mais variados temas, e no jornal diário Público para além de 3 blogues próprios, “Fugas“, “Timor” e “O provedor do Leitor“, alojados na plataforma “Blogger” é ainda possível ter acesso a 8 blogues convidados, incluindo o “Ponto Media” da autoria do jornalista e editor do “Publico.pt“, António Granado.

Outros meios de comunicação social reconhecem nos blogues um papel importante como meio de ligação entre alguns programas de televisão ou rádio e os espectadores ou ouvintes. Por exemplo na SIC-Notícias, os programas “Quadratura do Círculo” ou “O Dia Seguinte” dispõem de blogues onde os espectadores colocam as suas questões ou dúvidas aos comentadores residentes. A TSF, através dos “Fórum da TSF” e “Bancada Central“, prepara-se para introduzir o mesmo conceito.

Actualmente, a esmagadora maioria dos blogues portugueses encontra-se alojada no Blogger, nos blogs do SAPO, no Weblog.com.pt, adquirido em Janeiro de 2006 pela AEIOU, no Blog.pt ou num domínio e alojamento próprio. Alguns blogues mais antigos têm vindo progressivamente a sair das plataformas de blogues para os seus próprios domínios e alojamentos, como é o caso do blogue “Adufe”, que tendo sido criado em Julho de 2003 e depois de uma passagem por 3 plataformas diferentes, está, desde Janeiro de 2007, disponível em http://adufe.net/.

Referências bibliográficas:

  • Querido, P. & Ene, L. (2003). Blogs. Lisboa, Portugal: Centro Atlântico.

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Como sempre neste espaço, correcções, comentários e/ou sugestões serão muito bem-vindos.

3 anos

Número 3

3 anos de Lisbon Lab com 345 posts escritos, 971 comentários inseridos, mais de 170 mil comentários spam interceptados e apagados, 2 moradas, vários templates e sobretudo muitas opiniões partilhadas.

Muito obrigado a todos, pelo vosso tempo e os vossos comentários. Brevemente irão existir novidades por aqui… “stay tuned”.

Foto da autoria de Rafa from Brazil

8 coisas que não sabem sobre mim

8 coisas

Como podem ter reparado nos últimas semanas, a escrita neste blog tem sido muito ocasional, não por falta de assunto, mas por uma série de circunstâncias, que me deixa pouco tempo livre e pouca vontade para escrever nesse pouco tempo livre que me sobra.

Mas avançado ao assunto central deste post, recentemente a Dannie Jost passou-me a batata quente num meme sobre 8 coisas que os nossos leitores não sabem de nós. Apesar de não dar muito valor a estes memes, pela Dannie, vou fazer um esforço e cumprir a minha parte. Assim sendo, eis 8 coisas que, em princípio, vocês não sabem sobre mim.

1. Apesar de o meu Bilhete de Identidade dizer que nasci em Pombal, a verdade é que nasci em Coimbra.

2. A primeira vez que trabalhei foi nas férias escolares do Natal de 1989 1990, no conhecido restaurante Manjar do Marquês, tinha eu 13 12 anos.

3. No meu 12.ª ano fui Presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária de Pombal, numa experiência diferente, mas enriquecedora que infelizmente não foi tão frutífera como pretendia inicialmente.

4. O meu primeiro computador foi um portátil Toshiba. Se me lembro bem, julgo que era um Pentium I, 133 Mhz, com 16 MB de Ram, e um disco com 1,4GB. Lembro-me, como hoje, que custou 322 contos, porque também quis comprar uma drive para ler CDs, que era um extra.

5. O meu primeiro blog, em 2004 chamava-se Lusotopia, e pretendia ser um espaço de discussão para uma nova visão para Portugal. Enfim, as coisas em que acreditamos quando somos jovens e ingénuos.

6. Adoro viajar. A minha primeira viagem para fora de Portugal teve como destino Barcelona, cidade que gosto bastante.

7. Sou um péssimo dançarino e um péssimo praticante de desporto.

8. Por último, mas não menos importante, após 5 meses na Hiperbit, mudei novamente de emprego, desta vez para a Wingman.

Foto da autoria de holeymoon.

Weblog, uma palavra com 10 anos

weblog

Fez ontem, dia 17 de Dezembro, 10 anos que o conceito “Weblog” foi criado por Jorn Barger, a partir das palavras “web” (Internet) e “log” (registo).

No entanto, segundo Dave Winer (2002) o primeiro weblogue criado foi o primeiro web site, http://info.cern.ch/, criado por Tim Berners-Lee no CERN – European Organization for Nuclear Research. Esta página funcionava como um apontador, no qual Tim Berners-Lee referenciava os novos web sites que iam surgindo na World Wide Web. Felizmente o conteúdo deste web site foi arquivado pelo World Wide Web Consortium em http://www.w3.org/History/19921103-hypertext/
hypertext/WWW/News/9201.html
.

Posteriormente em 1993 surgiram as páginas “What’s New” do NCSA – National Center for Supercomputing Applications (http://archive.ncsa.uiuc.edu/SDG/Software/Mosaic/
Docs/old-whats-new/whats-new-0693.html
), e da Netscape, que seria o maior blogue no ar entre 1993 e 1996 (http://wp.netscape.com/home/whatsnew/). Nestas duas páginas “What’s New” já podemos encontrar duas características principais dos weblogs, a datação das entradas e a sua colocação por ordem inversa.

Em 1996 e 1997 surgem os primeiros blogues pessoais como o Scripting News de Dave Winer, o Robot Wisdom de Jorn Barger, o Tomalak’s Realm ou o CamWorld.

Em 1999, de acordo com Rebecca Blood (2000), existiam 23 weblogues referenciados. Nesse mesmo ano, numa altura em que a comunidade de blogues começava a aumentar, Peter Merholz defendeu que se deveria pronunciar “wee-blog”, por se tratar de um meio para comunidades. Este acontecimento acabou por conduzir à utilização “abreviada” da palavra “blog” e à referência do seu editor como o “blogger”.

Em Portugal, tanto se utiliza a grafia “weblogue” como “blogue”, sendo os seus editores apelidados de “blogueiros” ou “bloguistas”.

A partir de 1999, o número de weblogues foi aumentando cada vez mais, sobretudo graças ao aparecimento de novas ferramentas de publicações de conteúdos, como o “blogger” da Pyra, que permitiram que qualquer pessoa, sem ter necessidade de quaisquer conhecimentos de HTML, pudesse ter o seu próprio blogue na “World Wide Web”. Tal como refere Recuero (2003) “O conhecimento da linguagem HTML era uma barreira constante para o aumento do número de usuários, que só foi quebrada com o surgimento das ferramentas dos sistemas baseados na Web, como o Blogger e o Groksoup, lançados pela Pyra em Agosto de 1999.”

De acordo com José Luis Orihuela (2007), é possível estabelecer três grandes épocas na história dos blogues, o “início” entre 1992-1999, período a que já nos referimos anteriormente, a “expansão“, entre 2000 e 2004, na qual se dá um enorme crescimento graças sobretudo ao aparecimento do Blogger e que culmina com a declaração do termo “weblog“, como palavra do ano pela Merrian-Webster e a “desmistificação“, em 2005 e 2006, período em que os meios de comunicação tradicionais passaram “a reconhecer o potencial das novas formas de comunicação públicas, que surgiram associados aos chamados meios sociais”, como os blogues“.

Segundo Blood (2000), os blogues originais eram um misto de links, comentários e pensamentos pessoais/ensaios. Com a entrada em cena do Blogger, em 1999, começaram a aparecer inúmeros blogues, actualizados várias vezes por dia, cujo tema central não eram os pensamentos do “blogueiro”, mas sim algo que ele tinha reparado no seu local de trabalho, notas sobre o seu fim-de-semana ou, por exemplo, reflexões sobre um determinado assunto. Os links dentro dos blogues levavam-nos para outros blogues, nos quais havia alguma referência ao tema abordado ou nos quais existia simplesmente também um link para o blogue de partida.

Bibliografia:

Nota: grande parte do conteúdo deste artigo provêm do primeiro esboço da minha dissertação de mestrado sobre o impacto dos blogues na Web em Portugal, que se encontra de momento suspensa, de acordo com o post “Relato dos últimos meses“.

Este blog não está morto

Macbook

Em resposta ao post do Ricardo Bernardo, “Os blogues morreram?“, publicado no seu Zone41 é meu dever informar que este blog também não está morto, simplesmente não tenho tido o tempo livre necessário para o actualizar devido às recentes mudanças na minha vida. Mais pormenores e detalhes sobre as minhas últimas semanas no próximo post.

Fotografia da autoria de Lucie Saint-Clair