BloggerView #22 Paulo Querido

Paulo Querido Após mais uma semana de ausência, infelizmente (ou felizmente) pelos mesmos motivos, eis mais uma BloggerView. O entrevistado desta semana é o Paulo Querido, que tanto como se apresenta no próprio blog, é é jornalista freelancer, formador e consultor em Tecnologias de Informação e Conhecimento, autor do blog autor do blog / webzine “!Certamente“. Eis as respostas do Paulo Querido.

1. Quando é começaste a “blogar”? Quais as principais razões que te levaram a ter um blog?
Paulo Querido (PQ):
Tendo em conta os disparates que fui lendo, ao longo de 2008, sobre a história da blogosfera em Portugal, decidi optar pela resposta longa a esta pergunta sempre que ela me surja.

Já publico na web, em domínio próprio e numa lógica de “último empurra primeiro”, desde 1996. Contudo, nunca foi um blogue, nem uma “homepage”, os antepassados dos diários pessoais. Era simplesmente um webzine — um magazine mais ou menos periódico publicado na web. Assumi a designação, o formato blogue e a ferramenta em 27 de Março de 2003. A principal razão: ver como funcionavam os blogues do ponto de vista técnico, uma vez que ia escrever um livro sobre eles.

2. Como surgiu o nome do teu blog?
PQ:
O meu deve ser um dos poucos espaços que mudou de nome 😉 Começou por ser “o vento lá fora(*)”, com asterisco, uma evocação de um poema de Álvaro de Campos. Porque o blogue começou por ser um mero espaço citacional do que eu ia encontrando por aí pela web.

Em 2005 mudou de nome para “Certamente!”, com ponto de exclamação, numa homenagem à minha mulher. Só nós dois percebemos a razão da palavra, mas isso não é um problema. O espaço é, como todos os blogues, um espaço de afirmação pessoal e a palavra certamente, para mais exclamada, ajusta-se ao ambiente.

3. Tens metas ou objectivos que pretendes atingir com o teu blog? Quais são?
PQ: O Certamente! sempre teve objectivos. Começou por ser a forma de entender a tecnologia. Depois tornou-se num laboratório — o que me custou o PageRank, com tantas cabriolices que fiz no domínio a Google tem-no penalizado. Laboratório de técnicas de blogging e de tecnologias (o blogue conheceu 4 sistemas editoriais e ainda hoje está dividido por 2 bases de dados).

Na verdade, durante anos nunca o levei a peito enquanto espaço editorial, até porque espaços para ser jornalista não me faltam. Este ano, contudo, decidi que Certamente! ia ser um espaço sério. Fiz uma limpeza aos meus trolls e passei a editar com maior consciência. Mesmo os posts eminentemente pessoais têm hoje uma linguagem mais cuidada e algum resguardo pessoal.

Actualmente tenho por objectivo praticar jornalismo multimedia no sentido verdadeiro da palavra multimedia, e não no sentido que lhe é dado em Portugal, como sinónimo de audio-visual: usar diferentes meios, agrupados ou não, para transmitir um conteúdo jornalístico, fixo ou dinâmico.

4. Em tua opinião, qual é o papel que os blogs podem desempenhar no futuro, por exemplo em empresas ou escolas?
PQ:
Penso que desempenharão o mesmo papel que têm em geral: veículos de comunicação bi-direccional (de conversação, se preferirmos) entre grupos de pessoas. No caso das empresas podem servir também para comunicar a empresa para fora, desempenhando o segundo papel dos blogues, que sem deixar de ser conversacional, leva o diálogo do circuito mais ou menos interno para uma relação entre a empresa e o mundo. Para as escolas, o blogue pode — e deve — ser também (ou principalmente, diria) uma ferramenta de educação. Quer sobre ela própria e a edição web, quer sobre os outros conteúdos do ensino.

5. Como prevês o futuro dos blogs nos próximos anos?
PQ:
Variado 😉

Temos por um lado a evolução diferenciada entre países. Os blogues portugueses, individualmente e mesmo consideradas as suas tendências colectivas, seguem um percurso cada vez mais divergente face aos americanos e aos brasileiros, por razões diferentes.

Por outro, evolução editorial variada. Um blogue serve para muita coisa, não só para mostrar o gato e o ego ou para spining político. Convergindo mais ou menos acetuadamente com as metodologias do jornalismo e com jornalistas na equipa, alguns blogues tomam conta de algum do espaço até aqui ocupado pelos órgãos de comunicação social. Por exemplo. No extremo oposto, continuarão a existir blogues diarísticos sem outra pretensão além do exercício do autor.

Em terceiro lugar, evolução tecnológica. Os sistemas editoriais são cada vez mais potentes e continuam a evoluir. Poderão comportar, ou apenas aceitar como adicionais integráveis, outras ferramentas de edição/agregação, ou distribuição (RSS, microblogging, redes sociais, semântica). A esta evolução está intimamente ligada a evolução em termos de networking: o desempenho de um blogue dependerá da sua capacidade de adaptação à cultura reticular, que por sua vez depende da sofisticação tecnológica.

6. Quantos feeds RSS tens no teu agregador de conteúdos? Que agregador utilizas? Porquê?
PQ: Vou confessar 1 coisa: eu não tenho agregador de conteúdos!

Ou por outra: uso os agregadores de conteúdos de forma variada, seja para produzir o www.blogservatorio.info, o www.nestemomento.com ou mashups como o Mediastream PSD (http://pauloquerido.net/mediastream/psd/) , não uso os agregadores de conteúdos para ler blogues.

Isto a menos que consideres o Thunderbird um agregador de conteúdos; as publicações que me interessa realmente seguir, subscrevo-as por mail, hoje em dia esta subscrição está associada ao RSS. As outras, que vejo intermitentemente, sigo a partir de… bem, de sistemas que escrevi para me detectarem os padrões emergentes que valem a pena espreitar. Se não fossem eles, a minha atenção dispersava-se excessivamente, ao ponto da improdutividade e até da paralisia.

Também valorizo o Twitter como ferramenta de selecção dos conteúdos importantes, uma ferramenta que, tal como as que idealizei e construí para meu uso, é um intrumento de crowdsourcing, de aproveitamento do valor gerado pelas interacções da multidão.

7. Qual é a tua opinião sobre os feeds RSS? Que papel pensas que poderão desempenhar no futuro, por exemplo na relação entre os governos e os cidadãos?
PQ: Um papel essencial! Eu QUERO o Diário da República em RSS. Eu QUERO as sessões do Parlamento em RSS. Não quero “ver” o debate, nem sequer na televisão do parlamento, mas quero ler o debate e pesquisá-lo. Eu quero, além das sínteses que só os jornalistas me podem trazer (televisão, jornais), poder produzir as minhas próprias sínteses do DR e do parlamento, e para isso preciso de RSS. Eu QUERO os concursos públicos no meu agregador (no meu caso, no mail 🙂 ), para seleccionar os que me interessem, não quero pagar uma assinatura a um intermediário para me trazer uma informação que já é minha, é pública.

O RSS é essencial na relação do governo e do Estado com os cidadãos. Em Portugal não conheço um único exemplo de um organismo público com RSS, o que é lamentável e nos dá a dimensão exacta da relação do Estado com a web social: zero.

Isto para não irmos às APIs, que são o passo seguinte dessa relação. Eu QUERO produzir uma pesquisa, selecção e output dos MEUS conteúdos (toda a informação produzida pelo Estado é, por definição, pública, logo minha) recorrendo directamente às fontes: as bases de dados onde ela reside. Não quero procurar essa mesma informação através do Google, que não mandatei nem tenciono mandatar, para me filtrar a informação.

Da mesma forma, o Estado deve querer dar livre acesso directo a todas as pessoas, e não apenas a algumas, à informação que produz.

8. Para ti, qual é a coisa mais importante que está a acontecer na web, neste momento? Porquê?
PQ: O mais importante é o sacrifício da atenção. A dispersão dos nossos sentidos. Dividimos o nosso tempo por um cabaz de conteúdos que pensamos que escolhemos, mas não pensamos na razão porque os escolhemos — e o grau de futilidade dessa razão pode não ser o mais desejado no final. Ao contrário da web, a nossa capacidade intelectual não é finita. O cérebro cansa-se e e cérebro fica inoperacional com tanta informação, que acaba em ruído.

O mais importante é tomar a consciência de que a liberdade de escolher produz uma euforia que, como todas, é contraproducente no médio e longo prazo.

Tecnologicamente, o mais importante da web neste momento são as ferramentas que nos auxiliem a recentrar a atenção, as ferramentas que nos ajudem a centralizar o que é útil, as técnicas que nos ajudem a saber mais — o que não é nada a mesma coisa que ter mais informação.

9. Para além dos blogs, que outro software social utilizas, como o Flickr, Del.icio.us, Digg, LinkedIn, Twitter ou outros?
PQ: Em pessoa ou por interposto infobot, uso diariamente o Twitter e o Delicious. Dou alguma atenção ao LinkedIn, ao DoMelhor (o Digg português) e ao FriendFeed. Tenho conta e ligo pouco a meia dúzia ou uma dúzia de outros serviços.

10. Achas que existe espaço em Portugal para bloggers profissionais?
PQ: Acho. Mesmo que os salários venham de outro lado, há muita gente cuja actividade profissional depende do seu blogging e esse número aumenta todos os dias. Dentro de um ano, ou menos, teremos os primeiros bloggers a viverem só do blogging, ou tendo desta actividade mais de 3/4 dos seus rendimentos. É capaz, até, de já existirem alguns destes no nicho do “ganhe dinheiro agora, pergunte-me como”.

Obrigado Paulo pela tua participação. Na próxima semana, pelo menos assim, espero, irei publicar a BloggerView do Bruno Amaral.

  • http://pauloquerido.net/ Paulo Querido

    Obrigado eu, Hugo, pela oportunidade. Sei que apenas uma dúzia de pessoas percebeu o ponto mais valioso das minhas respostas, que é um ponto que nada tem a ver comigo ou com o que penso. A relação do Estado com a web 2.0 é nula.
    Eu quero o @SãoBento no Twitter, como tenho o @DowningStreet.
    Eu quero o Diário da República em RSS.
    Eu quero uma API da Assembleia, uma API da Presidência e uma API do Governo (por esta ordem).

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