Os Social Media em Portugal – segundo Bruno Amaral

Relações Públicas - blog de Bruno Amaral

Na sequência dos artigos sobre os Social Media em Portugal, que estou a publicar por estes dias, hoje irei apresentar as respostas Bruno Amaral, autor do blog Relações Públicas.

Eis as suas respostas:

1. Como caracterizas o panorama dos Social Media, em Portugal?

Bruno Amaral:Ainda me parece algo muito novo. Por um lado, no campo dos blogs já conseguimos ver projectos muito sólidos e interessantes que vão além do tipico blog de comentário. São blogs que se preocupam em dar informação de qualidade aos seus leitores. E rivalizam com os jornalistas por se especializarem num único tema. Por melhor que seja um jornalista não vejo ninguém capaz de focar o panorama da música como o remixtures, ou a comentar o que se passa no Sapo.pt como o ponto sapo.

Mas os social media não são apenas blogs de nicho ou mesmo blogs como plataforma. São também as redes sociais como o hi5 e o linkedin, Wikis e fóruns de discussão. No entanto, as redes sociais não conseguem prosperar, ironicamente, por causa das próprias redes sociais. O hi5, netlog e outras variantes fazem com que estas representações de Social Media sejam vistas como meras brincadeiras, coisas de miúdos.

Por essas e outras razões acho que os social media em portugal ainda são muito verdes. Exemplo disso é que as agências de comunicação só recentemente começaram a experimentar ter blogs ou mesmo a debater os blogs como se vê nas Conversas da Unicer. Conversas essas que quase deixam os bloggers fora do diálogo.

As agências ainda tratam os bloggers como jornalistas. Enviam-nos press releases em PDF ou escritos para jornais. Esquecem-se de que um blogger é alguém que só escreve sobre o que gosta e não publica para um editor. Publica para si próprio e para os que partilham os mesmos valores. (Admito que não sei até que ponto os bloggers com objectivos comerciais encaixam nesta ideia).

Um exemplo desta relação que ainda é pouco clara é a forma como as Agências de Relações Pùblicas se relacionam com bloggers e jornalistas. Se lhes perguntarmos em que regras se baseiam para se dirigir a jornalistas, os relações públicas dessas agências podem simplesmente indicar um código de ética corporativo especifico para essa classe profissional. Mas se lhes perguntarmos como se relacionam com os bloggers e outros social media, dificilmente dão uma resposta tão concreta. Não existem códigos de conduta assumidos pelas Agências para o relacionamento com os bloggers .

Sem esquecer que qualquer profissional de comunicação está em posição de vantagem sobre um blogger. Facilmente o pode manipular ou aproveitar-se dele sem que haja  oportunidade de responsabilizar o Relações públicas por falta de ética profissional. Esta é uma ideia que me teria passado ao lado se não me tivesse sido mencionada pelo professor Thomas Pleil no Euroblog.

2. Qual a maior lacuna no panorama dos Social Media portugueses?

Bruno Amaral:Falta-nos um bom technorati para a língua portuguesa. Não por ser especialmente útil para as pessoas, mas porque nos ajudava a perceber melhor os blogs em português e a explicar a sua importância para as empresas.  Além disso, se quisermos procurar por conversas do nosso interesse em blogs em português, temos de nos sujeitar às ferramentas como o technorati que lhes dão menos relevância.

Mas mais importante do que uma ferramenta de análise é a postura. Acho que os blogs deviam esforçar-se por mostrar esta face da web a quem ainda não a conhece. As pessoas ainda pensam nos blogs como um universo que gira em torno do Abrupto. Não gira, e o próprio abrupto não consegue estabelecer diálogo com outros blogs de nichos diferentes ou de carácter diferente. Como os blogs geeks ou os baby blogs.

Outra falha está na postura das agências de comunicação. Começam a criar blogs e a entrar no diálogo. Mas ainda não mudaram nada nos seus próprios sites corporativos, não há rss ou social media releases disponíveis por exemplo. Por vezes o blog nem faz parte do site corporativo.

E também nos falta algum do espírito de colaboração ou rivalidade saudável que vejo nos blogs brasileiros por exemplo.

Portanto não há uma grande lacuna. Mas existem pequenas falhas que podem desaparecer com o tempo.”

3. Como prevês a evolução dos Social Media nos próximos 5 anos?

Bruno Amaral: “Estive a ler por alto o estudo mais recente da Obercom sobre a Internet em Portugal. E honestamente pensava que tinha crescido mais do que aquilo que cresceu. Mas mesmo assim há uma série de coisas que eu gostava de ver acontecer:

  • Gostava de ver os blogs a ser levados mais a sério;  Quando falo do meu blog passo sempre 5 minutos ou mais a explicar porque é que é um compromisso sério e a sensibilizar as pessoas a respeito de outros blogs que conheço.
  • Espero que as empresas em Portugal venham a perceber os social media e como resultado se tornem mais responsáveis e transparentes. Ou seja, que comecem a perceber que o diálogo é cada vez maior e que têm de se colocar ao nível dos seus clientes, colaboradores e parceiros se esperam sobreviver. Mas já me contento se as empresas forem ler o Cluetrain Manifesto e reflectir sobre ele.
  • Mas mais do que isso, gostava de ver uma escola onde os social media fizessem parte do currículo. Principalmente nos cursos de relações públicas.

Hà medida que a tecnologia evoluir e formos mudando a forma como comunicamos a sociedade também vai mudar. (Clay Shirky 2008, pagina 17 ) E já vemos essas alterações em acção. O caso mais recente foi ver uma professora em confronto com uma aluna nas notícias. Foi algo que teria sido resolvido pelo conselho directivo e os pais há uns anos atrás. Mas atravessou as barreiras da escola e chegou a tribunal depois de passar pelo horário nobre.

Muito obrigado Bruno pela tua participação. No próximo artigo irei publicar as respostas do André Ribeirinho.

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